E se você virou o chefe que jurou nunca ser?

Talvez você tenha aberto este texto com um aperto no peito.
Porque, em algum momento, se pegou fazendo o que jurou que nunca ia fazer. Falou mais grosso do que precisava. Descontou na equipe um peso que não era dela.
E depois, no silêncio, veio aquela pergunta que ninguém tem coragem de dizer em voz alta. Será que eu virei o chefe que eu odiava?
Se foi isso que te trouxe até aqui, respira. O simples fato de você se perguntar isso já te separa de quem magoa e não se importa.
Quem é frio de verdade não perde tempo lendo um texto como este.
Então vem comigo, sem se esconder e sem se afundar em culpa. Porque a história por trás de uma liderança tóxica quase nunca é a que a gente imagina.
Liderança tóxica quase nunca começa com um vilão
Quando se fala em liderança tóxica, a imagem que vem na cabeça é a do chefe cruel por natureza. Aquele que sente prazer em humilhar, o vilão de novela.
Mas, na vida real, quase nunca é assim.
Na maior parte das vezes, o líder tóxico é alguém que começou querendo fazer o certo. E foi sendo empurrado, pressão sobre pressão, até um lugar que ele mesmo não reconhece mais.
Ninguém acorda um dia e decide adoecer a própria equipe. A dureza vai se instalando devagar, na meta que não cabe no tempo, no medo de falhar, no ambiente onde parecer frágil é perigoso.
Aí você endurece pra sobreviver. E, sem perceber, começa a fazer com os outros o que estão fazendo com você.
O caso que eu nunca esqueci
Tem um caso, num livro de casos clínicos organizado pelo psiquiatra Christophe Dejours, que eu carrego comigo desde que li.
Quem conta é a médica Marie Grenier-Pezé.
Uma funcionária, a Solange, chega ao consultório adoecida por assédio moral. A diretora dela, que o livro chama de Sra. T., a tratava como se ela não existisse. Quando Solange voltou de uma licença-saúde, ouviu que não tinha mais nem uma mesa pra sentar.
Até aí, é a história que a gente já conhece, a da vítima e a da algoz.
Mas alguns meses depois, quem bate na porta da mesma médica é a própria Sra. T.
A chefe que assediou também adoeceu.
E aí a história vira outra. A Sra. T. era uma mulher brilhante, engenheira de formação, que foi assumindo cargos cada vez mais pesados num ambiente durão.
Pra aguentar ali, nas palavras do livro, ela “vestiu a armadura de guerra”. Ela “acaba se tornando mais dura”. Chorava escondida no banheiro quando não aguentava mais, tinha emagrecido, não dormia, vivia com medo.
O que mais me marca é que ela quase não registrava a própria crueldade com a Solange. A mesa, os objetos, a xícara da colega eram, pra ela, as últimas coisas do mundo.
Estava afogada demais na própria pressão pra enxergar o estrago que fazia.
Não era uma perversa. Era mais uma pessoa moída pela mesma engrenagem que moía a Solange.
Por que a gente endurece sem perceber
Foi por isso que esse caso entrou pra clínica.
Ele mostra que o assédio, nas palavras do próprio livro, “não poderia ser reduzida de maneira simplista a uma história entre um perverso e sua vítima”.
Dejours passou a vida estudando isso e chegou a uma conclusão incômoda. O sofrimento no trabalho, e a dureza que ele gera, nascem muito mais do jeito como o trabalho é organizado do que de um caráter ruim.
Uma meta que não cabe no tempo, um medo que não passa, um lugar que aplaude quem é “forte” e despreza quem sente. Tudo isso coloca quase qualquer um numa posição em que endurecer parece a única saída.
Isso não faz de você um monstro. Faz de você alguém sob pressão, se defendendo do único jeito que aprendeu.
E o que a gente consegue entender, a gente também consegue mudar.
Entender não é passar a mão na cabeça
Só que entender a engrenagem não apaga o que ela fez.
A pressão explica, mas não desculpa. Quem você magoou sentiu de verdade, e a dor dessa pessoa não fica menor porque você também estava sofrendo.
Compreender de onde vem a sua dureza não serve pra você se isentar. Serve pra te dar um caminho de volta, pra você poder mudar e, onde der, reparar.
As duas coisas cabem juntas. Você foi empurrado por algo maior que você, e segue responsável pelo que faz com o outro.
Segurar as duas ao mesmo tempo é difícil. E é esse o trabalho.
Sinais de que o líder tóxico pode ser você
Não é fácil se enxergar de fora. Mas alguns sinais costumam aparecer quando a gente escorrega pra esse lugar sem perceber.
Nenhum deles, sozinho, condena ninguém. Mas quando se juntam e viram rotina, merecem um olhar honesto.
Você controla cada detalhe, corrige em público, fala mais grosso do que gostaria e sente que nada sai direito sem você em cima.
Explode e depois se arrepende. Leva o peso do trabalho pra casa. Vive apagando incêndio e mesmo assim se sente insuficiente.
As pessoas silenciam quando você chega. Param de discordar, de trazer problema, de te procurar. E você desconfia que a fonte é você.
Se você se reconheceu em alguns, calma. Reconhecer não condena você. É o começo da saída.
Como parar de ser o líder que você não quer ser
Mudar não é virar um chefe “bonzinho” que aceita tudo. É parar de confundir dureza com competência, e medo com respeito.
Costuma passar por alguns movimentos.
Nenhum desses passos exige que você seja perfeita amanhã. Eles pedem só que você saia do piloto automático e volte a escolher como quer tratar quem está do seu lado.
Dá pra mudar de lado da engrenagem
Aquele caso da Sra. T. me ensinou que ninguém está condenado ao pior de si.
A mesma mulher que feriu foi a que, ao se ver de frente com o próprio sofrimento, pôde recomeçar. Não porque o que ela fez deixou de importar, mas porque ela finalmente enxergou a engrenagem e escolheu não ser mais peça dela.
Você pode fazer o mesmo. E não precisa fazer sozinha.
Se quiser um espaço pra entender de onde vem essa sua dureza e construir outro jeito de liderar e de se relacionar, sem julgamento, é sobre isso que eu trabalho. Veja como funciona a terapia ou fale comigo, no seu tempo.
E, se o que pesa em você é conviver com uma liderança assim, e não ser ela, o texto sobre chefe tóxico pode te ajudar a se proteger.
Perguntas frequentes
O que é liderança tóxica?
É um padrão de gestão que adoece a equipe, com controle excessivo, humilhação, medo, cobrança sem limite e ausência de reconhecimento. Nem sempre vem de má-fé. Muitas vezes nasce de um líder que também está sob pressão e endurece para sobreviver. O que a define é o efeito, o de deixar o ambiente doente.
Como saber se eu sou um chefe tóxico?
Você controla cada detalhe, corrige em público, explode e depois se arrepende, e percebe que as pessoas silenciam ou param de te procurar. O próprio fato de você se perguntar isso já mostra uma abertura que quem é frio de verdade não tem.
Entender a pressão não vira desculpa para o que eu fiz?
Não. Entender de onde vem a sua dureza explica, mas não apaga a dor de quem foi magoado. Serve para te dar um caminho de mudança e de reparação, não para te isentar da responsabilidade. As duas coisas cabem juntas. Você foi empurrado por algo maior e segue responsável pelo que faz com o outro.
Dá para deixar de ser um líder tóxico?
Dá. Passa por reconhecer o padrão sem se afogar em culpa, olhar a própria pressão, reparar o que for possível, devolver voz à equipe e, quando dá, buscar ajuda para entender a origem. Mudança de comportamento é possível em qualquer momento da vida.
Preciso de terapia para isso?
Ajuda muito, porque a dureza costuma ter raízes que a gente não enxerga sozinha. Mas o primeiro passo já está ao seu alcance hoje, que é reconhecer, olhar a própria pressão e começar a reparar o que der.
Referências e leituras
- Dejours, Christophe (org.). Psicodinâmica do trabalho: casos clínicos.
- Dejours, Christophe. A loucura do trabalho.


