Assédio moral: só a terapia resolve?

Depois de tudo o que o assédio moral faz com a gente, chega uma pergunta que aperta: será que isso passa? E, junto dela, outra: só a terapia resolve?
Se você está tentando se recuperar de assédio moral no trabalho, ou ainda está dentro dele, este texto é pra você. Eu vou ser honesta sobre o que a terapia resolve, o que ela não resolve sozinha, e como se recuperar de assédio moral de verdade, no seu tempo. (Se você ainda tem dúvida se o que vive é assédio, comece pelo assédio moral no trabalho.)
A terapia resolve o assédio moral?
Vou responder direto, porque você merece: a terapia, sozinha, não faz o assédio parar.
Ela não troca o seu chefe, não muda a chefia, não pune ninguém. Fazer o assédio parar envolve outras coisas: pôr limites no que der, procurar canais internos como RH ou ouvidoria, e, se você quiser buscar os seus direitos, a parte jurídica com um advogado ou advogada. Isso não é comigo, é um caminho que existe e que importa.
Então por que uma psicóloga está te dizendo pra fazer terapia? Porque o assédio não fere só a sua rotina. Ele fere a imagem que você tem de você mesma. E é essa parte, a de dentro, que a terapia cuida. É ela que sustenta qualquer decisão que você vá tomar sobre o resto.
O que a terapia faz de verdade
Não é pouca coisa. Deixa eu te contar o que acontece nesse espaço.
Primeiro, e talvez o mais importante, a terapia te ajuda a tirar de cima de você uma culpa que nunca foi sua. A sair da pergunta “o que há de errado comigo?” e voltar pra pergunta certa: “o que fizeram comigo, e de onde isso vem?”.
Ela cuida das marcas que o assédio deixa: a ansiedade, o medo, a autoestima no chão, a dificuldade de confiar de novo, o susto que sobra até depois de sair. Cuida também do corpo, que costuma ser o primeiro a cobrar.
E ela te ajuda a decidir os próximos passos a partir de um lugar de lucidez, e não de pânico. Ficar, sair, denunciar, mudar de área: são decisões suas, e elas ficam muito mais claras quando você não está mais se afogando em autocobrança.
Como a recuperação acontece
Recuperar-se não é virar a página de um dia pro outro. É um processo, e ele costuma passar por alguns movimentos.
E olha, tem saída de verdade. A psiquiatra Marie-France Hirigoyen, que acompanhou muita gente que passou por isso, diz uma frase que eu acho luminosa: essa experiência dolorosa “é muitas vezes ocasião de uma remobilização pessoal”, e dela a pessoa “sai mais forte, menos ingênuo”. Não porque o sofrimento tenha sido bom, ele não foi. Mas porque, com cuidado, dá pra reconstruir. Para isso, nas palavras dela, é preciso “coragem de olhar de frente sua ferida”.
Quanto tempo leva (e por que não é linear)
Essa é a pergunta que mais me fazem, e a resposta honesta é: não tem prazo fixo.
Depende de quanto tempo o assédio durou, do apoio que você tem por perto, e de você ainda estar ou não naquele ambiente. Sair do lugar que adoece costuma acelerar muito, porque o corpo finalmente sai do estado de alerta.
E tem uma coisa que é importante você saber pra não se cobrar: a recuperação não é uma linha reta. Tem dias melhores e tem recaídas, tem um gatilho que traz tudo de volta de repente. Isso não é retrocesso, é como a recuperação funciona. Você não está falhando por não ter “superado” ainda.
E se eu não puder fazer terapia agora?
Terapia ajuda muito, mas o cuidado não começa nem termina nela. Se ela não é possível nesse momento, tem o que você já pode fazer hoje.
Não fique sozinha: se apoie em pessoas de fora do trabalho, que te lembram de quem você é. Registre o que acontece, pra não ficar refém da dúvida e da culpa. Cuide do sono e do corpo, mesmo no básico. E, se precisar de ajuda profissional gratuita, existem os psicólogos do SUS e os núcleos de atendimento de universidades.
O ponto é: você não precisa esperar estar “no fundo do poço” pra começar a se cuidar.
Quando procurar ajuda profissional
Vale procurar ajuda mais cedo do que a gente costuma procurar. Alguns sinais de que é hora: o sono e a ansiedade já não te dão trégua, você não consegue mais funcionar como antes, a culpa não larga, ou você percebe que se afastou de tudo o que gostava.
E se em algum momento passar pela sua cabeça que não vale a pena continuar, por favor, procure ajuda agora e fale com alguém de confiança. Aqui no Brasil você pode ligar pro CVV, no número 188, a qualquer hora, de graça e em sigilo. Você importa muito mais do que aquele lugar te fez acreditar.
Você pode se recuperar
Se tem uma coisa que eu queria que ficasse com você, é essa: o que o assédio te tirou dá pra reconstruir. Não do jeito de antes, talvez, mas de um jeito seu, mais forte e mais lúcido.
Se você quiser fazer esse caminho com companhia, é sobre isso que eu trabalho na terapia: um espaço que é só seu, sem julgamento, pra você se reconstruir no seu tempo. Se quiser, veja como funciona a terapia ou fale comigo, sem compromisso, no seu tempo. Eu também falo bastante sobre esses assuntos lá no meu Instagram, o @lorenavieirapsi.
E, se ainda não leu, comece pelo assédio moral no trabalho, que explica o que é e como reconhecer.
Referências e leituras
- World Health Organization. Mental health at work.
- Hirigoyen, Marie-France. Assédio moral: a violência perversa no cotidiano.
Perguntas frequentes
A terapia resolve o assédio moral?
A terapia, sozinha, não faz o assédio parar, isso envolve limites, canais internos e, às vezes, a via jurídica. Mas ela cuida da parte de dentro, que é enorme: a culpa, a ansiedade, a autoestima e a confiança que o assédio abala. É o que sustenta qualquer decisão que você vá tomar depois.
Assédio moral tem tratamento?
Tem. O sofrimento causado pelo assédio (ansiedade, insônia, queda de autoestima, sintomas depressivos) pode ser cuidado em terapia e, quando necessário, com acompanhamento médico. Não é frescura nem falta de força: é adoecimento real, e adoecimento se trata.
Quanto tempo leva para se recuperar de assédio moral?
Não existe prazo fixo. Depende de quanto tempo durou, do apoio que você tem e de você ainda estar ou não no ambiente. Sair do lugar que adoece costuma acelerar bastante. E a recuperação não é linear: tem dias melhores e recaídas, e isso faz parte.
Preciso sair do emprego para me recuperar?
Nem sempre, e nem sempre dá para sair agora. Dá para começar a se proteger e a se cuidar mesmo estando lá dentro. Mas, se o ambiente segue te adoecendo e não muda, em algum momento vale colocar a sua saúde na conta da decisão.
E se eu não puder fazer terapia agora?
O cuidado começa no que já está ao seu alcance: não ficar sozinha, apoiar-se em pessoas de fora do trabalho, registrar o que acontece, cuidar do sono e do corpo. Há também opções gratuitas, como psicólogos do SUS e núcleos de atendimento em universidades.


